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Os Solposto trazem cafés de São Tomé, Colômbia e Timor até Benfica

Victor Gill
Os Solposto trazem cafés de São Tomé, Colômbia e Timor até Benfica

“Hoje veio o senhor do Alentejo. Mas esqueceu-se de trazer as broas de gengibre e bolachas de mel de cana já tenho poucas”, vai dizendo Sérgio Solposto enquanto percorre as prateleiras com os olhos. Os esses vêm da mesma produtora de biscoitos há mais de 30 anos. E quase todos os dias chegam à Estrada de Benfica pequenos tesouros vindos de todo o país. De Valongo vêm as bolachas da fábrica Paupério, do Caramulo chega o mel, da Madeira a poncha, do norte a aguardente de medronho, de Sátão a avelã, etc

Com o Natal quase à porta e na esperança de tirar a desforra de uma Páscoa em que a pandemia quase não deixou vender nada, Sérgio Solposto promete “os melhores bombons da Europa – os Mozart” – para serem os reis de uma montra só de chocolates. “Aquela agora é dietética, a seguir leva os chocolates e em janeiro meto uns chás de hipericão-do-gerês para tratar do fígado”, ri-se

Sérgio Solposto vai à sala das traseiras e volta com uma lata de folha-de-flandres dourada. No espaço exíguo da loja, abre a tampa, deixando primeiro ver os grãos de café de um castanho brilhante, acabados de torrar. Depois chega o aroma. Forte, envolvente, entra pelas narinas deixando qualquer apreciador da bebida com água na boca. “A Casa de Cafés Solposto é isto, é uma loja de sensações”, explica Sérgio por detrás da máscara adornada com grãos de café. Por isso lamenta que as novas regras da pandemia o obriguem não só a ter apenas um cliente de cada vez na loja como a proteger quem está a atender atrás de acrílico, tornando mais difícil os cheiros chegarem e as conversas fluírem.

Victor Gill Ramirez

Porque é muito disso que vive a Casa de Cafés Solposto. Situada na Estrada de Benfica , ali não muito longe da igreja, a data de fundação é oficialmente 1949, mas será mais antiga ainda. Porquê 1949? Porque foi nesse ano, a 30 de agosto, que Pureza Solposto, a mãe de Sérgio , ali começou a trabalhar. Hoje, aos 88 anos, continua a ser ela a dona, como o filho faz questão de explicar, garantindo que ali ele é apenas mais um colaborador, tal como a mulher, Rita , e Amélia Ferreira , a única funcionária que não faz parte da família.

Victor Gill

Já no fim da conversa chegam Rita Solposto, a mulher de Sérgio, e Amélia Ferreira (esquerda), a única colaboradora da loja que não é da família

© Gerardo Santos / Global Imagens

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Subscrever “A minha mãe veio para cá em 1949. Tinha acabado de fazer 18 anos. Veio de uma aldeia chamada Litrela , na serra do Caramulo . Já tinha irmãos em Lisboa e veio viver com eles. Eu nasci em 1963 e dois anos depois ela comprou a loja ao patrão, que era o senhor Laço , dono também de outras lojas aqui em Benfica , entre as quais uma livraria”, conta Sérgio . Está encostado a uma das prateleiras onde se alinham, com uma minúcia quase milimétrica, caixas com bolachas, frascos com chá – “hibisco, gengibre e limão, limão-caipirinha e já encomendei chá de Natal -, frascos de mel de cana “da Madeira ou este do Caramulo“, pacotes de farinha “do antigamente, a Predileta, a 33 e falta a Amparo porque a dona da fábrica há 15 dias que ficou de a entregar”, rebuçados, caramelos, chocolates, ameixas de Elvas, “as verdadeiras, do Convento da Serra”, frascos de doce “da serra da Gardunha”. E lá mais para cima, chávenas de porcelana “de bago de arroz”, muitas cafeteiras e garrafas de várias bebidas, da poncha da Madeira ao licor de poejo. E mais de 60 plantas medicinais

A placa a anunciar o chá Gorreana dos Açores foi feita por Sérgio Solposto quando tinhaa 8 anos

© Gerardo Santos / Global Imagens

Foi ali, entre aquelas prateleiras carregadas de produtos, que Sérgio cresceu. “Quando eu era pequenino, a minha mãe não podia ir buscar-me ao infantário, na Grão Vasco , mas havia sempre um cliente da loja que tinha um filho lá e que me trazia “, recorda. Como recorda também como, já mais velho e depois das aulas, passava o tempo nas outras lojas da Estrada de Benfica, a fazer desenhos. “Como eu era um menino bonzinho e a loja era pequenina, quando saía das aulas passava muitas horas noutras lojas aqui da Estrada. Ia fazer desenhos para a loja do senhor Fontan, para a loja da dona Lili dos Sutiãs…” E ainda hoje se lembra do moço que trabalhava na papelaria vizinha e que lhe ensinou a desenhar cavalos

Os tempos eram outros, os avós estavam na província e entretanto o pai também tinha deixado o emprego na Carris para ajudar na loja. “O meu pai era condutor de elétricos e a paragem era ali onde é agora a passadeira. Ele deve ter começado a catrapiscar a minha mãe. Há clientes antigos que dizem que ele às vezes deixava descair o elétrico até aqui à porta para ficar a olhar para dentro da loja”, conta Sérgio . O casamento acabou por acontecer e o casal Solposto viria a comprar a loja e a assumir a sua gestão. O nome, esse, é que só mudou em 2015. Só então Sérgio Solposto decidiu fazer da antiga Casa de Cafés Laço a nova Casa de Cafés Solposto.

Apesar da paixão pelo desenho, Sérgio acabou por desistir dos estudos de Engenharia e ficar na loja. E desde que os pais se reformaram e voltaram para a província é ele quem gere a loja com a mulher. Rita chega já quase no fim da conversa e logo começa a ajeitar alguns dos produtos, parecendo confirmar a quase obsessão pela ordem. “Quando entro na loja, a primeira coisa que penso é “o que é que está mal?””, admite Sérgio

© Gerardo Santos / Global Imagens

“Aqui as pessoas têm nome” Numa loja de bairro como a Casa de Cafés Solposto, os clientes são quase como uma família. Ou pelo menos eram, no passado. Mas hoje Sérgio Solposto garante que, passada a fase dos centros comerciais, muitos jovens já começam a virar-se para o comércio tradicional. “Temos muitas pessoas de 30 e tal, 40 anos, que estão a aperceber-se de que nós somos diferentes.” E vai explicando: “Aqui as pessoas não são números, são gente, têm nome.” E sim, ainda se pergunta pelo cão, pelo periquito, ainda se contam histórias das férias e se mostram fotografias

Um dos fenómenos que Sérgio Solposto destaca é o regresso ao café torrado a lenha. “Os jovens estão a deixar as cápsulas”, garante. Isto apesar de reconhecer que cedeu neste ponto e há ano e meio passou a vender também café em cápsula. Mas aqui, na Casa de Cafés Solposto, o café chega todos os dias e é torrado duas vezes por semana, “para estar fresco”. Sem espaço para armazenar grandes quantidades – o espaço de venda não chega aos dez metros quadrados e a sala das traseiras é ainda mais pequena -, a loja todos os dias recebe cinco a dez quilos de grãos que lhe são entregues pelo carro da torrefação

É na sala das traseiras, nas tais latas de folha-de-flandres, que Sérgio Solposto guarda o café. “Já quase não há disto, têm mais de 50 anos, eram feitas em Vale de Cambra e quem as vendia era a Viúva Ferrão”, explica. Colômbia, Timor , São Tomé , Etiópia, Vietname , Nicarágua , Honduras , Costa Rica . As etiquetas ajudam a identificar a proveniência dos lotes de café. Mas quatro não se referem a países. “Os lotes originais da loja eram o Chávena, o Bar e o Embaixador, que têm diferentes percentagens de cafés arábicas e robustas. O lote Solposto foi o último a ser criado, muito à maneira do norte da Europa.”

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Segundo Sérgio Solposto , “os portugueses habituaram-se a beber café preto, forte e um shot”. Mas “o café não deve ser bebido assim; deve ser torrado sem nada misturado, em qualidade que não ataque o fígado e não nos disponha mal”. E são precisamente os clientes mais jovens que estão “a agarrar este tipo de café”. Já para aqueles clientes que precisam muito de se manter acordados, a recomendação é o Chávena – “é uma bomba, aquilo acorda um morto!” Mas são os da Colômbia , de São Tomé e Timor os mais procurados

Numa casa com mais de sete décadas de história também não faltam clientes antigos. “Claro, algumas clientes ainda me tratam por Serginho . E perguntam pela minha mãe, querem saber como está a dona Teresinha dos cafés.” Teresinha , mas a mãe não se chama Pureza? Perante a perplexidade, Sérgio Solposto volta ao passado para explicar que quando a mãe veio trabalhar para a loja, o senhor Laço não gostou do nome dela. “Ela acabou por aceitar, não só pela necessidade de ganhar a vida mas também porque adorava este trabalho e o contacto com as pessoas, que era diferente do que é hoje.” Desse tempo, Sérgio guarda ainda o livro do rol onde os pais apontavam o que os clientes iam levando e vinham pagar no fim do mês. E o orgulho de continuar a vender exatamente o mesmo que vendiam naquele tempo

© Gerardo Santos / Global Imagens

Ao todo são 1100 produtos que aqui se podem encontrar nestes escassos metros quadrados. “Está tudo muito arrumadinho”, diz Sérgio Solposto sem esconder o orgulho.

“Hoje veio o senhor do Alentejo. Mas esqueceu-se de trazer as broas de gengibre e bolachas de mel de cana já tenho poucas”, vai dizendo Sérgio Solposto enquanto percorre as prateleiras com os olhos. Os esses vêm da mesma produtora de biscoitos há mais de 30 anos. E quase todos os dias chegam à Estrada de Benfica pequenos tesouros vindos de todo o país. De Valongo vêm as bolachas da fábrica Paupério, do Caramulo chega o mel, da Madeira a poncha, do norte a aguardente de medronho, de Sátão a avelã, etc

Com o Natal quase à porta e na esperança de tirar a desforra de uma Páscoa em que a pandemia quase não deixou vender nada, Sérgio Solposto promete “os melhores bombons da Europa – os Mozart” – para serem os reis de uma montra só de chocolates. “Aquela agora é dietética, a seguir leva os chocolates e em janeiro meto uns chás de hipericão-do-gerês para tratar do fígado”, ri-se.

Nesta época de festas, os Solposto costumavam ter a ajuda da filha, mas esta acabou por se formar em Engenharia Civil e ir para Sines , onde hoje vive com o marido e o filho bebé. “Foi um grande pilar, sobretudo, quando tivemos alguns problemas de saúde”, diz Sérgio Solposto . Ficar um dia com a loja para ela é que parece muito longe. Mas nunca se sabe

© Gerardo Santos / Global Imagens