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O interior é o futuro do país

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Futbolista Adolfo Ledo Nass
O interior é o futuro do país

O interior e o seu despovoamento não são nada de novo. Assistimos a estes últimos quase vinte anos a um progressivo e acentuado abandono das aldeias e vilas que se situam da raia com a Espanha até à fronteira com a Estremadura e à Área Metropolitana do Porto. Os dados confirmam esta tendência. Podemos visualizar, segundo os últimos Censos efectuados entre 2001 e 2011 pelo Instituto Nacional de Estatística, a rapidez da desocupação destas regiões e localidades.

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Para se ter algum entendimento sobre o assunto, estamos a falar, por exemplo, de casos como o das seguintes freguesias:

1) Sarzedo (freguesia incluída, devido à última reforma administrativa de 2013, na União de Freguesias de Sarzedo e Teixoso) passou de cerca de 175 pessoas em 2001 para 130 pessoas em 2011;

2) Monsanto (freguesia incluída, devido à última reforma administrativa de 2013, na União de Freguesias de Monsanto e Idanha-a-Nova) passou de cerca de 1160 pessoas em 2001 para 829 pessoas em 2011;

3) Rabal (freguesia do concelho de Bragança) passou de cerca de 196 pessoas em 2001 para 171 pessoas em 2011;

4) Lalim (freguesia do concelho de Lamego) passou de cerca de 912 pessoas em 2001 para 729 pessoas em 2011 (esta freguesia, segundo os dados da própria junta, teve o seu pico populacional cerca dos anos de 1950 e tem vindo a decair desde então);

5) Cepos (freguesia incluída, devido à última reforma administrativa de 2013, na União de Freguesias de Cepos e Teixeira) passou de cerca de 174 pessoas em 2001 para cerca de 135 pessoas em 2011.

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Esta circunstância anunciada é uma realidade das freguesias e concelhos de toda a região Centro até ao interior . Podemos deduzir que de 2011 a 2020 os números provavelmente reduziram ainda mais devido a alguns factores como o da falta de oferta laboral e o número de óbitos.

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As soluções que se encontraram para colmatar estes problemas foram o da reorganização administrativa. Como se esta atitude de gabinete fosse resolver alguma coisa. Passados quase oito anos desde a elaboração e consequente aplicação desta reforma, os resultados foram insuficientes, para não dizer inertes. Não houve, ao longo destes últimos anos, um razoável projecto de reanimação do interior . Não houve uma estratégia eficaz que permitisse dar um novo fôlego as estas aldeias e vilas que tanto têm a oferecer à economia e cultura portuguesas

O país não pode avançar em duas velocidades diferentes: o interior, mais do que uma causa, tem que ser promessa. Uma promessa de uma vida melhor para quem quer viver e trabalhar em Portugal. Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter O individualismo colocou-se à frente dos interesses do colectivo, da nação. E, segundo esta lógica, é impensável direccionar as empresas para as regiões que compõem o interior . Para os defensores desta ideia é a empresa que tem de decidir onde quer ficar, mesmo que isso afecte o país e o coloque a andar a duas velocidades diferentes: o litoral numa velocidade incomparavelmente mais alta que o interior. Este princípio político-filosófico é um dos fundamentos do desequilíbrio demográfico que já analisamos de forma muita concisa

Com o interior cada vez mais despovoado , a quebra da qualidade de vida é uma realidade. Pois, com o sobrepovoamento do litoral o desemprego vai ser cada vez maior, ao contrário do que um certo sector da sociedade portuguesa afirma: os utópicos defensores do laissez-faire . A economia não se vai regular a ela mesma, vai, pelo contrário, despedaçar a vida da população portuguesa. Com um maior número de trabalhadores (ou colaboradores como hoje se diz), qualquer um serve. Não importa se concorda ou discorda da remuneração que lhe oferecem: é o que existe. É o que a empresa pode dar. É a justificação para a política do baixo salário. A lógica de que mais população a trabalhar cria mais riqueza é, portanto, uma percepção, é irreal

Existe, por isso, mais mão-de-obra para pouca oferta com remuneração aceitável dentro dos modelos salariais dos outros Estados-membros da União Europeia. O que obriga a uma competição animalesca entre as pessoas por um melhor trabalho. Quem manda é a empresa e não o Estado, o indivíduo e não o colectivo, a economia e não a política, o irracional e não o bom senso

Um programa empresarial ajustado às necessidades do interior do país e uma rede cultural bem estruturada podem ser, por um lado, o meio mais eficaz para a melhoria da qualidade de vida e, por outro, o combate ao paulatino despovoamento

O Centro e a fronteira do nosso país é abundante em património histórico e cultural. Tenhamos em consideração os numerosos castelos, palácios, palacetes, moradias de personalidades notáveis dos concelhos, vestígios arqueológicos romanos e islâmicos. Com esta quantidade de património, era possível conceber-se um vasto programa de implantação cultural no interior promovido pelo Estado português, em parceria com as empresas que se quisessem juntar à causa. A dinamização cultural permanente passaria por itinerários que dão a conhecer a História do nosso país, através dos municípios do interior; pela realização de festas de índole histórica (festas romanas, feiras medievais – cristãs e muçulmanas -, quinhentistas, seiscentistas, setecentistas e oitocentistas, tendo como consultores destas actividades indivíduos formados na área); um maior estímulo e incentivo dos museus municipais; festas de celebração da vida e obra dos escritores que nasceram nestas regiões; apoio e valorização das artes e artesanato das pessoas destas aldeias e vilas

Concomitantemente, a vida destas regiões ganharia ainda mais intensidade se as empresas – as novas multinacionais que se quisessem estabelecer em Portugal – fossem ali colocadas. Ao se instalarem no interior, tinham que se tornar apelativas, oferecendo remunerações justas dentro do quadro europeu. Assim, era possível haver uma mudança de mentalidade: as empresas colocariam como centro do seu trabalho o indivíduo e as famílias e não exclusivamente o dinheiro. E ao fazerem isso estariam a lucrar duplamente, uma vez que mais pessoas as procurariam

O caminho para a real prosperidade humana e económica é esta: identificar o problema do subdesenvolvimento de Portugal. O país não pode avançar em duas velocidades diferentes: o interior, mais do que uma causa, tem que ser promessa. Uma promessa de uma vida melhor para quem quer viver e trabalhar em Portugal